A contagem aérea da fauna bravia em 2020 ajudou os cientistas a medir o sucesso dos esforços de proteção e restauração do Parque Nacional da Gorongosa.

-Marc Stalmans, PhD, Director dos Serviços Científicos

Porque é que contamos os animais no Parque Nacional da Gorongosa e porque usamos aviões ou helicópteros para o fazer? Saber o tamanho das populações e as diferentes tendências da fauna bravia ajuda-nos a rastrear a eficácia dos esforços de proteção e restauração do Parque. As contagens aéreas têm muitas limitações, mas são a maneira mais eficaz de cobrir uma grande área de forma rápida e objectiva.

No sentido dos ponteiros do relógio, começando do canto superior esquerdo: Dra. Tara Massad, contagem aérea de fauna bravia de 2014. Cockpit, computador para navegação e recolha de dados. Os alunos – Ana Gledis – participam de uma contagem aérea da fauna bravia. Preparando-se para a primeira contagem aérea da fauna bravia da Gorongosa usando uma aeronave Super Cub em Setembro de 1968. Da esquerda para a direita: Paul Dutton (ecologista e piloto), José Lobão Tello (Chefe da Fiscalização) e Ken Tinley (ecologista). Mike Pingo (piloto) e Marc Stalmans (cientista). Créditos fotográficos Lorraine Chittock e Marc Stalmans.

As primeiras contagens aéreas da fauna bravia na Gorongosa foram realizados usando uma avioneta de asa fixa. Mais tarde, um helicóptero foi usado. Embora muito mais caros, os levantamentos de helicóptero são mais precisos. Animais menores também podem ser contados. Impalas e facoceros, por exemplo, não foram enumerados durante as primeiras contagens de asa fixa.

Até agora foram efectuadas 16 contagens aéreas de fauna bravia no Parque Nacional da Gorongosa. Um relato científico completo dos números da fauna bravia de 1968 até 2018 pode ser encontrado online em https://doi.org/10.1371/journal.pone.0212864.

Os alunos matriculados no programa de Mestrado em Biologia da Conservação no Parque participaram de uma contagem aérea simulada da fauna bravia como parte da sua formação em 2020. 

As linhas nestes mapas representam a trajectória de voo para cada levantamento aéreo. Cada ponto roxo representa uma observação aérea ao longo das linhas de voo, variando de um único oribi a 200 ou mais inhacosos.

Búfalo nas margens do Rio Pungué. Foto – Marc Stalmans.

Por onde andam os búfalos

Em 1972, cerca de 14.000 búfalos percorriam o Parque Nacional da Gorongosa. Em 2000, restavam menos de 100. A recuperação natural teria demorado muito e, portanto, a suplementação era necessária. Entre 2006 e 2011, um total de 210 búfalos foram introduzidos no Parque provenientes do Kruger Park na África do Sul e do Parque Nacional do Limpopo e da Reserva Nacional de Marromeu em Moçambique.

As contagens aéreas da fauna bravia são críticas para rastrear o sucesso da recuperação dos búfalos. Os números do modelo estatístico indicam um aumento anual de 11 por cento, validado pelas contagens completas realizadas a partir de 2014.

A população de búfalos do Parque Nacional da Gorongosa está a espalhar-se por todo o Vale do Rift e as manadas tornaram-se maiores, como pode ser visto nas posições GPS registadas durante as sucessivas contagens aéreas. A última contagem em 2020 apontou para mais de 1200 búfalos.

Contando crocodilos

Os crocodilos e hipopótamos no Parque Nacional da Gorongosa estão fortemente ligados a rios permanentes, lagoas e ao Lago Urema. Por esta razão, um voo específico é realizado durante a contagem aérea da fauna bravia para se focar apenas nestas duas espécies. 

Olhe com atenção e verá que este grande ajuntamento de hipopótamo está rodeado por crocodilos. Foto – Tara Massad

Voamos por toda a extensão dos rios principais e do Lago Urema e todos os hipopótamos e crocodilos são enumerados. Se tivermos sorte, a maioria dos crocodilos está fora da água, apanhando sol nas margens do rio. No entanto, se estiver muito quente, eles estarão principalmente na água e serão mais difíceis de contar.

A população original de hipopótamos era superior a 3.000, mas foi reduzida para menos de 100 animais. A população de hipopótamos da Gorongosa já se recuperou para mais de 750 indivíduos.

A contagem aérea de 2020 revelou a presença de mais de 2.700 crocodilos, a maior contagem até agora e o maior número de hipopótamos desde a sua dizimação durante a guerra civil Moçambicana.

A elusiva contagem de elefantes

Pode ser difícil de acreditar, mas apesar de seu tamanho enorme, o elefante pode ser difícil de avistar do ar. No Parque Nacional da Gorongosa, toda a manada pode permanecer invisível sob a espessa copa das florestas ribeirinhas, especialmente ao longo do Rio Pungué. Os elefantes também se agrupam quando enfrentam perigo ou perturbação, o que torna difícil contar os membros menores que estão guardados com segurança entre os adultos. 

Quantos elefantes consegue contar nesta fotografia? Consegue chegar a 60?

Os elefantes no Parque Nacional da Gorongosa foram reduzidos em 90% durante a guerra civil, sobrevivendo apenas cerca de 200 indivíduos. No entanto, eles estão a recuperar-se rapidamente e têm desfrutado de um ambiente rico e produtivo desde há duas décadas. Embora a contagem mais recente em 2020 tenha rendido apenas 781 elefantes, suspeitamos com base em trabalho demográfico, a contagem verdadeira é de cerca de 1.000. Embora os seus números estejam a recuperar-se bem, eles ainda ocupam apenas uma porção relativamente pequena da sua área anterior, como pode ser visto comparando os mapas de distribuição históricos e actuais.

Manada de elefantes numa lagoa em 2020. O número total de elefantes é de 60 ou mais. Foto – Marc Stalmans.

Alguns dos elefantes da Gorongosa começaram a movimentar-se novamente para norte. Durante a contagem aérea de 2020, observámos rastos e excrementos de elefantes bem perto do Rio Nhandue, que fica na fronteira norte do Parque. Estes sinais datavam da estação das chuvas. Os mapas reflectem os resultados das contagens, efectuadas no final da estação seca.

O lado mais ligeiro de uma contagem aérea 

As contagens aéreas da fauna bravia vida selvagem oferecem uma oportunidade e perspectiva únicas para fazer o levantamento de uma grande parte do Parque Nacional da Gorongosa num curto período de tempo. Além da contagem essencial da fauna de maior porte, há uma série de outras observações interessantes que são feitas.

É feito um conjunto de observações formais sobre a posição dos ninhos de abutres, ninhos de cegonhas-marabu, número e distribuição de calaus, cegonhas-de-bico-amarelo e grous-coroados. Isso levou à descrição da maior colónia de reprodução conhecida de cegonhas-marabu na África Austral.

Depois, há também algumas observações informais onde avistamentos inesperados ou raros são feitos. Com o passar dos anos, alguns dos avistamentos mais interessantes incluíram uma gondonga quase branca, uma tartaruga-de-casca-macia do Zambeze com seus rastos característicos de lagarta na lama, porcos-do-mato alimentando-se numa lagoa e um gato serval.

Gondongas (esquerda), porco-do-mato alimentando-se numa lagoa (direita). Fotos – Marc Stalmans.

Tartaruga-de-casca-macia do Zambeze com as suas pegadas características de lagarta na lama. Foto – Marc Stalmans.

Dr. Marc Stalmans, Director dos Serviços Científicos

O Dr. Marc Stalmans coordena os estudos de investigação científica no Parque Nacional da Gorongosa. Ele está envolvido no Projecto de Restauração da Gorongosa desde 2006 e descreve-o como “Um grande projecto para se envolver porque, como uma equipa, acreditamos no que estamos a fazer”.

Ele está a liderar um esforço para documentar a enorme biodiversidade do Parque através do Laboratório de Biodiversidade E.O. Wilson em Chitengo e desenvolver a próxima geração de especialistas em biodiversidade e ecologistas Moçambicanos.

“Pessoalmente, acredito que o programa de BioEducação do Parque é uma das coisas mais importantes que fazemos na ciência”, explica Stalmans. “É extremamente gratificante ver os jovens Moçambicanos descobrindo a sua paixão e desenvolvendo as suas competências como cientistas.”

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